Como dizer dedo-duro em alemão

Dedo-duro, cagueta, delator: seja qual for o nome, entregar os parceiros é garantir um lugar no camarote da desconfiança geral.

Mas xingar alguém de Harter Finger na Alemanha não vai funcionar.

Sinto muito.

Em poucas palavras, a grande culpa do dedo-duro é cometer um tipo bem específico de traição: quebrar o silêncio cúmplice do grupo.

Em alemão, esse barulho causado pelo dedo-duro é representado bem concretamente na palavra:

Whistleblower

O termo emprestado do inglês é usado assim mesmo no alemão e poderia ser traduzido mais ou menos como »soprador de apito«, »tocador de apito«, »apitador« ou qualquer coisa semelhante.

A imagem do dedo-duro nem sempre é negativa. Na Alemanha, existe até uma associação de »dedos-duro« chamada Whistleblowers Netzwerk.

Seu objetivo é fazer denúncias de más práticas e corrupção em diversos tipos de instituição.

Segundo eles, o grupo de »dedos-duro« trabalha pelo interesse público [im öffentlichen Interesse].

Pensando desse jeito, ser dedo-duro até que não é algo tão mau, não?


No Brasil, »apitar« está mais relacionado à capacidade de uma pessoa de se impor – provavelmente relacionada a juízes de futebol.

Em alemão, a figura do apito está diretamente associada à delação. Por exemplo, um sinônimo do verbo verraten [denunciar] é

 jemanden verpfeifen

Uma tradução literal dessa palavra poderia ser »apitar alguém« se pensarmos que esse verbo é derivado do substantivo Pfeife [apito].

Aí fica bem claro que tudo só faz sentido pelo lado metafórico.

Bem, agora que você sabe que verpfeifen significa »delatar, denúnciar«, provavelmente te bateu uma vontade enorme de tentar usar a mesma lógica de spielen-Spieler, lehren-Lehrer, fahren-Fahrer e criar uma palavra como:

[der] Verpfeifer

E nada poderia estar mais certo do que isso.

Verpfeifer é um termo da língua-padrão usado com bastante frequência para se referir àquelas pessoas que não se calam quando vêem algo errado no seu próprio grupo.

Essa matéria do jornal suíço Beobachter discute a necessidade de criar medidas que absolvam delatores que revelam para a mídia irregularidades na administração pública.

Afinal de contas, são eles que permitem trazer a público toda sorte de sujeira que pinta por trás dos bastidores.

»Opinião: protejam corretamente os delatores! Funcionários que denunciam problemas internos para a mídia foram absolvidos pela primeira vez. Motivos de alegria: delatores deveriam ter sido protegidos antes.«
[Fonte: Beobachter]

Já essa matéria do jornal Berner Zeitung lamenta o fracasso da implementação dessas medidas.

O articulista mostra que, apesar de haver esses mecanismos em empresas privadas, o setor público ainda precisa criar condições seguras para denunciar irregularidades – como é o caso do traficante dono de BMW que recebia benefícios sociais do governo, revelado pelo próprio jornal Berner Zeitung.

»Delatores não são mais bem protegidos. Funcionários que revelam irregularidades até são bem-vistos. Porém, a prefeitura recusou a proposta que pretendia protegê-los melhor.«
[Fonte: Berner Zeitung]

Quando a intenção é apontar casos de corrupção em instituições privadas e públicas, o dedo-duro é uma figura vista com bons olhos.

Porém, não é assim que funciona longe dos papeis e das grandes mesas burocráticas.

Nos guetos, nas gangues, na cultura de rua – em qualquer lugar onde não há pessoas sentadas e vestindo roupa social – ser um dedo-duro significa entrar para o grupo maldito daqueles em que não se pode confiar.

Cagueta é cagueta em todo lugar – mas na Alemanha se chama:

31er (einunddreissiger)

Poderíamos traduzir a grosso modo para o português como um »trinta-e-um« – do mesmo jeito que chamamos gente que age de má fé como »um-sete-um«.

A expressão faz referência ao parágrafo 31 da Betäubungsmittelgesetz [algo como »legislação sobre entorpecentes«], que regula exatamente a atenuação de pena ou absolvição para delatores.

Para quem tem a curiosidade de ver o texto original da lei original, ela está disponível na internet no site Gesetze im Internet – olha lá:

[Fonte: Gesetze im Internet]

Em uma tradução bem livre, a lei diz algo mais ou menos assim:

O tribunal pode reduzir a pena conforme o § 49 Abs. 1 do Código Penal ou, se o infrator não tiver uma restrição de liberdade maior do que três anos, absolvê-lo quando:

1. tiver colaborado através da revelação voluntária do seu conhecimento de que um crime relacionado ao seu ato pode ser revelado, conforme o §§29 até § 30a, ou

2. revelar voluntariamente seu conhecimento a tempo para um órgão de modo a prevenir um crime, conforme o §29 Abs. 3, §29a Abs. 1, §30 Abs. 1, §3-a Abs. 1 , que está relacionado ao seu ato.

Outro termo alemão bastante usado para marcar o cagueta do grupo é:

[der] Zinker

Apesar de já ter aparecido em título de peça de teatro, a palavra é bem usada na cena hip-hop.

Dá só uma olhada nesse treho da letra da música Chabos wissen wer der Babo ist [algo como »Os moleques sabem quem é o papai«] de um rapper chamado Haftbefehl [algo como »mandado de prisão«].

Preste atenção que, nessa parte, aparecem Zinker e 31er juntos.

Por aí, já dá para ver que é melhor ficar quietinho se você pretende continuar sendo aceito no grupo.

»Um dedo do meio para todo cagueta delator«
[Fonte: Genius]

Ficou curioso para ouvir uma gravação da música?

Então confira exatamente o trecho em que esse verso aparece.

Bem, se você não está se identificando muito com esse cenário do rap e do hip-hop e preferiria aprender uma versão – digamos – menos bruta da expressão, existe também um outro sinônimo mais leve:

[der] Spitzel

No começo desse ano, o jornal alemão Die Zeit produziu um documentário surpreendente sobre a abertura dos documentos da Stasi – a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental.

Nele, conta-se como o governo utilizava pessoas comuns para espionar cidadãos supostamente suspeitos.

Na primeira parte, a reportagem mostra como a autora e cineasta Susanne Concha Emmrich descobre finalmente todos os documentos registrando seus hábitos, suas preferências pessoais, seu dia-a-dia e mais uma série de banalidades.

Uma das lembranças mais dolorosas é a permanente suspeita de que seu namorado de escola era um informante do governo.

»Por anos, Susanne Concha Emmrich acreditava que seu namorado de escola espionava-a. Hoje ela sabe: tudo era bem diferente.«
[Fonte: Die Zeit]

Só para mostrar como essa mentalidade de denuncismo era forte e preocupante, resolvi mostrar também um cartaz anunciando esse documentário intitulado Der Verrat [»A denúncia«] e disponibilizado pelo próprio Centro Federal de Formação Política da Alemanha [Bundeszentrale für politische Bildung].

O filme mostra como o governo usava crianças e adolescentes como IM [Inoffizieller Mitarbeiter – Trabalhadores não-oficiais] para coletar informações e espionar cidadãos minimamente suspeitos.

[Fonte:Bundeszentrale für Politische Bildung]

Por um lado, é assustador pensar que isso chegou a acontecer por tanto tempo.

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